Crônica Titanic II

*Rodrigo Alves de Carvalho


Ismael e Ludmila pagaram dez mensalidades bem salgadas para a agência de viagens e agora se preparavam para o tão aguardado cruzeiro que fariam pelo litoral nordestino. Seriam oito dias de muito sol, cerveja, piscina, festas e diversão num luxuoso navio. O casal chegou ao Porto de Santos para o embarque. Uma multidão de pessoas esperava para subirem naquele transatlântico. Entretanto, Ludmila deu um passo para trás e se transformou numa estátua de olhos arregalados e pálida como fantasma. Ismael preocupado pergunta o que houve e ela aponta para o nome do navio gravado na proa em letras garrafais: 

“TITANIC II” 

- Nesse navio eu não entro! - Esbravejou Ludmila numa mistura de pavor e constrangimento. 

- Mas o que tem de mais? É apenas o nome do navio. Não tem nada a ver com o outro Titanic. 

- Você está louco Ismael! Um transatlântico desse tamanho, cheio de luxo, uma multidão a bordo, festa, alegria e no meio do caminho um iceberg! 

- Como assim iceberg? Vamos para a costa do Nordeste! Não existem icebergs! 

- Não Ismael! Nesse navio eu não subo! 

A mulher estava irredutível e foi preciso o comandante do navio juntamente com os agentes de viagem tranquiliza-la. Só após muitas ponderações e explicações a moça decidiu subir a bordo mesmo a contragosto. 

A viagem estava indo bem, todos se divertiam no Titanic II, menos Ludmila que não tirou uma boia dos ombros nem por um minuto e enquanto outros casais aproveitavam ao máximo o cruzeiro, a mulher da boia permanecia sempre alerta. 

Numa manhã quando já estava bem distante da costa pernambucana, um problema elétrico fez com que o navio tivesse alguns solavancos. Foi o bastante para Ludmila pirar de vez.  

- O Titanic vai afundar! O Titanic vai afundar! 

Não houve jeito e o navio teve que voltar até Recife para deixar Ludmila e Ismael em terra firme. 

Ao saírem do porto, a mulher carregando sua bagagem pesada, ainda agoniada por tudo o que havia acontecido, foi atravessar uma rua e acabou atropelada por um ônibus em alta velocidade. 

A viagem havia literalmente acabado para a finada Ludmila.  

Já o Titanic II completou o cruzeiro pela costa nordestina com muita festa, diversão, alegria e sem nenhum iceberg. 

 

*Jornalista, escritor e poeta, nasceu em Jacutinga (MG), possui diversos prêmios literários em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas. Em 2018 lançou seu primeiro livro individual intitulado “Contos Colhidos” pela editora Clube de Autores.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova

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