Sabedoria da vida cotidiana

*Felipe Pereira


Muitas pessoas acreditam que o único conhecimento existente é o acadêmico. Por vezes elogiamos um indivíduo que não desgruda de um livro e negligenciamos aqueles que falam errado, mas são dotados de grande criatividade.

Há uma frase atribuída erroneamente ao físico Albert Einstein que diz: “Todo mundo é um gênio. Mas se você julgar um peixe por sua capacidade de subir em uma árvore, ele vai gastar toda a vida acreditando que é estúpido”. Observo pessoas que são extremamente criativas, mas se sentem burras por não saberem resolver uma equação do segundo grau.

 Mas se analisarmos profundamente as formas do conhecimento, veremos que existem diversos, como o filosófico, o religioso, o empírico (famoso senso comum) e o mais prestigiado de todos, o conhecimento científico.

Contudo, o conhecimento que mais temos acesso é o empírico, aquela famosa troca de informações da vida cotidiana. Apesar de o conhecimento empírico ser baseado em ideias muitas vezes ilógicas e ambíguas, ele é responsável por estruturar as relações humanas. Sem a boa prosa, aquela conversa fiada, jogando palavras foras, as relações humanas seriam mais burocráticas e enfadonhas.

Acredito que toda forma de conhecimento é válida. Precisamos do científico para evoluir a humanidade, do filosófico para entendermos nosso papel na sociedade, do religioso para trazer conforto ao coração aflito e do empírico para podermos relaxar daquele dia estressante.

Julgar a capacidade intelectual de uma pessoa baseada apenas em uma forma de conhecimento é um erro grotesco. Como eu mencionei acima, existem pessoas com pouquíssimo conhecimento científico, mas que são capazes de ajudar seus semelhantes em momentos mais sensíveis. Existem pessoas que mal sabem resolver uma conta de matemática, mas impressiona com sua capacidade de criar obras fantásticas ou fazer aquelas delícias gastronômicas que deixa qualquer cientista com água na boca.

Precisamos respeitar a sabedoria do dia a dia, pois cada pessoa está lutando para entender o que é viver. Ninguém vem a esse mundo por vontade própria e, como já dizia o sublime filósofo Sartre, “Viver é isso, ficar se equilibrando o tempo todo, entre escolhas e consequências”.

Todos nós estamos interpretando o mundo a nossa maneira, cada pessoa é um universo diferente. Cada um tem suas histórias, suas mágoas e suas conquistas. Cada pessoa, por mais intelectual que seja, precisa se aconchegar na simplicidade da vida em algum momento. Às vezes, precisamos aceitar os contos mitológicos como reais por apenas um momento, para não perdermos a magia da vida. Ou orar de vez em quando para não se perder em um mundo extremamente sufocante.

A vida exige de nós comunhão, parceria. Estamos todos no mesmo barco da existência e podemos fazer uma escolha: ficar discutindo quem tem razão sobre a vida, ou sentarmos à beira da fogueira e compartilhar uma boa história.

Porque no fim, será o ato de darmos as mãos que irá nos levantar nos momentos mais sombrios.

*Formado em psicanálise pelo Instituo Brasileiro de Psicanálise Clínica, atua como psicoterapeuta e é pós-graduado em Psicologia Organizacional

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova

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