Em Mato Grosso / do Sul, Nova Andradina, nasceu na fazenda Primavera

*Claudinei Araújo dos Santos


No dia 9 de agosto de 2025, uma oportunidade fantástica aconteceu para a história de Nova Andradina. A Prof.ª Dra. Dulceli Tonet Estacheski, seu esposo Márcio e eu, Prof. Claudinei Araújo dos Santos, recebemos para uma verdadeira viagem no tempo o médico oftalmologista José Carlos Modesto. Há cerca de dois meses, por meio do advogado Ilson Cherubim — filho de moradores do município de Batayporã-MS, Aparecido e Antônia —, passamos a manter contato com o Dr. José Carlos Modesto.

Sempre tive curiosidade em saber quem foi a pessoa que, há várias décadas, é homenageada com o nome de uma rua em Nova Andradina-MS: Milton Modesto. Pernambucano de nascimento, Milton Modesto migrou com a família para o estado de São Paulo na década de 1950, integrando-se ao grande fluxo de nordestinos que, à época, fugiam da seca e buscavam no Sudeste brasileiro melhores condições de vida. Em 1954, mudou-se com a família para as terras de Mato Grosso, onde passou a trabalhar nas serrarias da Fazenda Primavera, empreendimento administrado pela sociedade Andrade e Lima.

José Carlos Modesto - Acervo: Dulceli Tonet Estacheski

Milton Modesto foi gerente da serraria e contribuiu significativamente para o desenvolvimento da Fazenda Primavera, pertencente a Antônio Joaquim de Moura Andrade. Na década de 1950, cerca de três mil pessoas trabalhavam no local. O médico José Carlos Modesto nos proporcionou uma viagem ao passado, permitindo que verificássemos os locais onde viviam as famílias ligadas à serraria. Durante toda uma manhã, ouvimos as narrativas do Dr. José Carlos Modesto, que descreveu como a Fazenda Primavera funcionava como uma 'cidade de porteiras fechadas'. Ele relembrou os feitos de Moura Andrade, as características da fazenda e o cotidiano das pessoas que ali viviam.

Primeiras casas da fazenda Primavera – Chaminé da Serraria - Acervo Museu da Fazenda Primavera

Segundo ele, no final dos anos 1940 a fazenda estava sendo preparada para se tornar uma cidade, plano que mais tarde foi modificado para a criação da Fazenda Baile. Modesto descreveu a localização de sua residência, próxima à serraria, onde hoje resta apenas a chaminé. Ali também funcionava o açougue, que vendia carne aos trabalhadores a preços módicos, cobrindo apenas os custos.

Acervo: Claudinei Araújo dos Santos

No local onde hoje se lê 'Atlético Jovem Moura Andrade' funcionava a escola da fazenda, onde as crianças das famílias de trabalhadores recebiam o ensino básico. Durante nossa caminhada, encontramos espaços e utensílios preservados, que continuam a contar parte da história local. Entre eles, o hangar dos aviões de Moura Andrade e a balança do açougue.

Hangar Moura Andrade e balança do açougue a fazenda -Acervo: Claudinei Araújo dos Santos

A igreja permanece ali, afinal já dizia Moura Andrade, uma cidade para ser cidade tem que ter três Ps, padre, polícia e o terceiro P, fica por conta do imaginário social, mas, este item, P, era uma necessidade para controle social.

Igreja da fazenda Primavera – Acervo: Dulceli Tonet Estacheski

Outro ponto, importante foi a visita que realizamos ao museu da Fazenda Primavera, estão ali memorizando o espaço diversos itens que fazem o passado narrar aquilo que não podemos esquecer.

Museu da Fazenda Primavera - Acervo: José Carlos Modesto

Fomos recebidos por Teutly, que faz a administração da fazenda Primavera na atualidade, neto de Teutly Soares Leitão, primeiro governante de Nova Andradina entre os anos de 1959 e 1961. O museu traz fotos sobre a trajetória de Moura Andrade, suas paixões pela aviação, a madeira que lhe foi essencial no processo de comercialização por meios de suas serrarias. Moura Andrade, foi um homem que sabia negociar em diversidades.

Acervo: Museu da Fazenda Primavera

Ainda encontram-se ali fotografias muito particulares da história de Moura Andrade, como o encontro com a esposa Guiomar Soares de Andrade, que sempre insistia com o esposo na necessidade de escolas, hospital e igrejas nas fazendas, pois, considerava ser parte da infraestrutura necessária para que suas fazendas funcionassem de forma decente.

Acervo: Museu da Fazenda Primavera

Antônio Joaquim de Moura Andrade, sempre estava envolvido em atos sociais, conseguia se relacionar bem com a sociedade, implementava ótimas relações políticas e econômicas, o que considerava ser importante. Desta forma, pudemos visitar a histórica fazenda Primavera, contando com o auxílio da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul- Campus de Nova Andradina, por meio da pessoa da Prof. Dra. Dulceli Estacheski, o seu esposo enquanto nosso condutor e a fantástica narrativa histórica do médico José Carlos Modesto, filho do histórico Milton Modesto. Desta forma, continuamos escrevendo nossa tese de doutorado e a pesquisa que analisa os empreendimentos/loteamentos realizados pelas empresas colonizadoras que culminam na formação e fundação de cidades.

*Professor Substituto - Área Educação – UFMS – CPNA – Curso de História Doutorando em História – UFGD – Pesquisa Colonização de Nova Andradina

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova. 

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