O silêncio na prática psicanalítica

*Felipe Pereira


Introdução

Ao longo de sua experiência atendendo pacientes, Freud formulou e reformulou a sua técnica, a Psicanálise. Juntamente com seu amigo, também médico, Josef Breuer, ele descobriu algo de extrema relevância para um processo terapêutico bem-sucedido, as bases da associação livre. Essa descoberta está registrada no livro Estudos sobre a Histeria (1895), em que a paciente de Breuer, conhecida pelo pseudônimo de Anna O., chamou esse processo de cura pela fala, em que era semelhante a limpar uma chaminé; quanto mais ela falava, melhor ela se sentia.

Conforme Freud avançou nos seus estudos, ele refinou a sua técnica para entender a dinâmica da vida psíquica de seus pacientes. Ele compreendeu que existiam processos inconscientes que lutavam constante e arduamente para virem à superfície, enquanto forças contrárias tentavam impedir esse avanço. Freud acreditava que esses fluxos de pensamentos eram jogados ao inconsciente para se evitar a angústia ligada a eles.

O analista era responsável por interpretar esse conflito e ajudar o paciente a entender os motivos que o levam a lutar tanto contra o reconhecimento desses fluxos inconscientes. A associação livre é a ferramenta que o analista usa para fazer as ligações necessárias entre o conteúdo expresso pelo paciente e o conteúdo latente que se esconde por meio daquilo que é falado. A interpretação dos sonhos também é usada para compreender o que está sendo ocultado.

Para todo psicanalista, essas técnicas são estudadas com profundidade, pois a mente humana é complexa e cada um experiencia a vida de maneira única. Devido a isso, se faz necessário o psicanalista compreender as formas verbais e não verbais de cada paciente.

Nem sempre o indivíduo terá palavras para se expressar, e é aqui que muitos psicanalistas podem falhar diante do silêncio do seu analisando. Parafraseando o grande poeta Carlos Drummond de Andrade, há silêncios que gritam. É justamente desses silêncios que quero falar.

O silêncio que constrange

Esse é o tipo de silêncio que todo iniciante na prática analítica está sujeito a ser afetado negativamente. Até mesmo analistas experientes podem ter, em alguns momentos, dificuldade em manejar corretamente esses percalços na análise. Quando falo dessa forma de silêncio, estou me referindo ao momento da clínica em que o paciente não diz nada, não coloca em pauta as suas questões e o psicanalista precisa constantemente fazer perguntas para que a sessão não seja um, perdoem o termo chulo, cantar de grilos.

Geralmente, analistas que estão começando na clínica, quando se deparam com pacientes assim, sentem certo constrangimento e colocam em dúvida sua capacidade profissional. Pode ser que esse tipo de silêncio faça o jovem analista se questionar se ele é realmente bom. Por isso é essencial a análise pessoal do psicanalista estar em dia, para que ele possa entender que pacientes com essas características aparecem com frequência na clínica, assim como os que falam assiduamente.

Para aqueles que se deparam com pacientes assim, é preciso ensiná-los a fazer associação livre. Não digo que deva ser ensinado a eles sobre a teoria psicanalítica, mas tem que ir estimulando-os a falar. Somente desta maneira o paciente irá conseguir associar a fala dele com acontecimentos da infância.

De forma a exemplificar, imagine uma mulher que busca uma análise para entender suas crises de ansiedade. Porém, ela não consegue descrever o que sente, ela sabe apenas que tem receio e medo de tudo. Ela não consegue dizer muita coisa nas sessões. Essa mulher responde apenas ao que o analista pergunta. Caso ele não pergunte nada, ela fica apenas calada, agindo passivamente. Pode ser que essa postura passiva e silenciosa seja para ela não ter que admitir que, quando criança, sofreu abusos de um de seus cuidadores e foi obrigada a permanecer calada, tendo que guardar o ocorrido para si. Talvez, para essa mulher hipotética, falar sobre esse trauma signifique sofrer represálias. Então ela mantém-se quieta nas sessões, para não sofrer com a dor do trauma e das suas consequências.

Nesse exemplo dado acima, o silêncio significou resistência. Nesse caso, o psicanalista não deve forçar o paciente a falar diretamente sobre suas angústias; ele precisa ir falando aos poucos, conforme o vínculo analítico for sendo fortificado. Muitos desses analisandos tiveram suas vozes roubadas quando crianças, tendo um superego rígido que os aprisionou. Eles sentem que, se falarem, podem ser punidos, pois a culpa está introjetada neles. Cabe ao analista criar esse ambiente seguro em que essas fantasias podem ser trabalhadas, e isso leva tempo; por este motivo, é importante não ter pressa no processo psicanalítico.

Silêncio que liberta

Já nesse tipo de silêncio, quem fala não são as palavras, mas os sentimentos. Esses sentimentos sufocados, quando ganham voz, trazem ao seu proprietário uma coisa valiosa e sublime: compreensão interna.

Essa compreensão ajuda-o a atravessar a fantasia. Para o psicanalista, cabe também silenciar-se para não atrapalhar esse processo de elaboração. Alguns analistas sentem desconforto nesses momentos e talvez sintam necessidade de dizer algo, mas, dependendo de como o analista se portar, pode atrapalhar a reflexão do paciente.

Com o tempo e a prática, o analista vai aprendendo a apreciar esses progressos juntamente com seus pacientes. Pode acontecer de algum paciente querer encerrar a sessão, pois algo que ele resistiu muito e manteve escondido por tempo demais vem à tona. Se o vínculo entre analista e analisando for forte, o profissional poderá explorar o porquê de ele querer encerrar a sessão, quais conteúdos dolorosos são esses que o fazem fugir; caso o paciente não dê abertura, a vontade dele deve ser respeitada, mas o psicanalista não deve descartar as compreensões que foram alcançadas, podendo retornar a essas questões posteriormente.

Para ilustrar essas minhas proposições, imagine um paciente, homem, que chega ao consultório deprimido, alegando não ter ânimo para nada, que se pune demais, que não dá valor ao que ele faz e que sempre busca aprovação alheia. Ao longo da análise deste paciente, buscando suas raízes na infância, pode ser que o indivíduo alcance uma verdade de muito sofrimento para ele, uma verdade que ele precisou guardar com toda a sua energia psíquica. Esse homem odeia o próprio pai. Mas, para ele, odiar o pai é algo extremamente errado e imoral, e, para não sentir isso, ele se pune com frequência. Ao chegar a essa verdade, pode acontecer de esse homem ficar completamente em silêncio, para digerir e aceitar que, durante muito tempo, ele sentiu ódio do pai, ao mesmo tempo que sentia amor.

Esses silêncios são catárticos, em que a angústia reprimida se liberta. No paciente, há um momento de dor, de confusão, de insegurança. O psicanalista não pode ter pena do paciente e tentar restringi-lo de sentir essa angústia, porém tem que atravessar juntamente com ele esse momento de sofrimento.

Conclusão

Existem silêncios e silêncios na clínica psicanalítica. Muitos pacientes chegam calados devido aos fardos da vida. Por meio do processo de transferência e contratransferência, o psicanalista aprende a ler esses silêncios, aprende a sentir o que o paciente sente e ajuda-o a traduzir simbolicamente o que ficou muito tempo sem a atenção devida. Por exemplo, um paciente que fica calado durante a sessão e, por ter um vínculo terapêutico bem estabelecido, o psicanalista entende que o paciente está com raiva dele devido aos conteúdos trabalhados em uma sessão anterior. O psicanalista devidamente preparado não deixa uma contratransferência negativa impedi-lo de entender a origem dessa raiva.

Por vezes será frustrante essa jornada, porque alguns pacientes se recusarão a falar e não voltarão mais ao divã. Alguns pacientes não mergulharão com a profundidade necessária para compreender seus sintomas. Ao analista, repito, cabe a paciência. Não ajuda em nada atropelarmos o processo do paciente e quebrarmos o silêncio dele nos momentos inapropriados.

Para meus amigos que estão iniciando na psicanálise, deixo um sincero conselho. Somente conseguiremos ajudar nossos pacientes a atravessarem suas angústias quando tivermos atravessado as nossas. Somente conseguiremos compreender a voz do silêncio dos outros quando escutarmos o nosso mais doloroso gemido da alma.

*Formado em psicanálise pelo Instituo Brasileiro de Psicanálise Clínica, atua como psicoterapeuta e é pós-graduado em Psicologia Organizacional

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova.

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