Cidades & Região / Nova Andradina
Quando a conveniência fala mais alto que a coerência
A aproximação de antigos adversários ao grupo governista expõe contradições e abre espaço para questionamentos sobre lealdade política
*Sandro de Almeida
A política é um terreno onde alianças mudam, estratégias são redesenhadas e interesses frequentemente falam mais alto que convicções. Ainda assim, existem movimentos que chamam atenção não pela habilidade política, mas pela velocidade com que antigos discursos são esquecidos quando surge uma oportunidade de ocupar espaços de poder.
Nos últimos anos, determinados grupos e lideranças construíram suas trajetórias fazendo oposição dura, críticas contundentes e ataques sistemáticos àqueles que hoje governam. Durante o período eleitoral, o tom foi de enfrentamento, desqualificação e tentativas constantes de enfraquecer os adversários. Agora, porém, o cenário parece ter mudado.
A porta que antes estava fechada foi aberta. E bastou uma fresta para que surgissem os oportunistas de plantão, prontos para atravessar o corredor e buscar acomodação dentro da estrutura de poder que tanto criticaram.
O que causa estranheza não é apenas a mudança de posição. A política democrática admite convergências e reavaliações de caminhos. O problema está na ausência de coerência entre o discurso de ontem e a prática de hoje. Quem passou anos atacando uma gestão, seus líderes e seus aliados, agora busca espaço exatamente ao lado daqueles que eram apresentados como adversários irreconciliáveis.
Enquanto isso, aliados históricos, que estiveram presentes nos momentos mais difíceis, observam o avanço de figuras que chegam apenas quando o terreno está pavimentado. São personagens que não ajudaram a construir o projeto, mas aparecem quando enxergam a possibilidade de ocupar cargos, influenciar decisões ou garantir protagonismo político.
A comemoração da oposição por essa aproximação também carrega um simbolismo importante. Afinal, depois de sofrer derrotas eleitorais e ver seus projetos rejeitados pelas urnas, parte desse grupo encontra uma nova rota para continuar exercendo influência, agora por dentro da estrutura que antes combatia.
O risco desse movimento é claro: abrir espaço para que a conveniência substitua a fidelidade política e permitir que interesses pessoais sejam colocados acima dos compromissos assumidos com a população e com os aliados que ajudaram a construir a base de sustentação do governo.
Na política, portas abertas são importantes para o diálogo. Mas quando a porteira fica escancarada sem critérios, corre-se o risco de premiar quem sempre esteve do outro lado da cerca e desvalorizar aqueles que permaneceram firmes quando não havia garantia de poder ou vantagem.
A coerência continua sendo uma das moedas mais valiosas da vida pública. E o eleitor, mais atento do que muitos imaginam, costuma reconhecer a diferença entre quem constrói uma caminhada e quem apenas aproveita o caminho já pronto.
*Diretor do Jornal da Nova
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova
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